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História dos Cemitérios Portugueses

12 min de leitura
História dos Cemitérios Portugueses

História dos Cemitérios Portugueses: Da Antiguidade à Modernidade

Os cemitérios são muito mais do que simples espaços de repouso dos mortos. São repositórios de história, arte, memória coletiva e identidade cultural. Em Portugal, a história dos cemitérios reflete as transformações políticas, religiosas, sanitárias e sociais que o país atravessou ao longo dos séculos, desde os enterramentos nas igrejas medievais até aos modernos cemitérios-jardim contemporâneos.

Neste artigo, percorremos a fascinante história dos cemitérios portugueses, explorando como a relação entre os vivos e os mortos se transformou ao longo do tempo e como os espaços funerários evoluíram para se adaptarem a novas necessidades e mentalidades.

Os Enterramentos na Idade Média: Dentro das Igrejas

Durante a Idade Média, a prática mais comum em Portugal era o enterramento no interior das igrejas ou nos adros adjacentes. A proximidade com o espaço sagrado era considerada fundamental para a salvação da alma, e os fiéis acreditavam que ser sepultado perto do altar ou de relíquias de santos lhes garantiria proteção espiritual.

A Hierarquia dos Enterramentos

O local de sepultura dentro da igreja refletia a hierarquia social do falecido:

  • Junto ao altar-mor: reservado ao clero e à alta nobreza
  • Nas capelas laterais: para famílias nobres e burguesas que financiavam a sua construção
  • Na nave central: para os paroquianos de maior estatuto
  • No adro: para os mais pobres e para aqueles a quem era negado o enterramento no interior

Esta prática perdurou durante séculos, criando problemas graves de salubridade. As igrejas tornaram-se verdadeiros depósitos de cadáveres, e o cheiro a decomposição era uma realidade quotidiana que os fiéis suportavam em nome da fé.

A Revolução dos Cemitérios: O Século XIX

O grande ponto de viragem na história dos cemitérios portugueses ocorreu no século XIX, impulsionado pelo movimento higienista e pela influência do Iluminismo. O Decreto de 21 de setembro de 1835, promulgado por Rodrigo da Fonseca Magalhães, proibiu os enterramentos dentro das igrejas e ordenou a construção de cemitérios públicos em todas as povoações.

A Resistência Popular

A imposição dos cemitérios públicos não foi pacífica. Em muitas regiões do país, a população resistiu violentamente à mudança, considerando-a uma afronta à tradição e à religião. O episódio mais célebre desta resistência é a Revolta da Maria da Fonte (1846), no Minho, onde a proibição dos enterramentos nas igrejas foi uma das causas do levantamento popular.

A criação dos cemitérios públicos em Portugal foi um processo longo e conflituoso, que opôs as razões de saúde pública às tradições religiosas profundamente enraizadas na cultura popular. A resistência à mudança demonstra a importância que o local de sepultura tinha na mentalidade portuguesa da época.

Os Primeiros Cemitérios Públicos

Apesar da resistência, os cemitérios públicos foram sendo progressivamente construídos em todo o território. Os primeiros grandes cemitérios públicos portugueses surgiram nas principais cidades:

  • Cemitério dos Prazeres, Lisboa (1833): um dos primeiros e mais importantes, construído na sequência da epidemia de cólera
  • Cemitério do Alto de São João, Lisboa (1833): inaugurado no mesmo ano, para dar resposta à mesma emergência sanitária
  • Cemitério de Agramonte, Porto (1855): o principal cemitério da cidade do Porto
  • Cemitério da Conchada, Coimbra (1860): notável pelo seu enquadramento paisagístico

A Época de Ouro da Arte Tumular: Séculos XIX e XX

Os cemitérios oitocentistas e do início do século XX tornaram-se autênticos museus de arte ao ar livre. A burguesia em ascensão via no túmulo uma forma de afirmar o seu estatuto social e perpetuar a sua memória.

Estilos Arquitectónicos

Os jazigos e mausoléus portugueses refletem a sucessão de estilos artísticos:

  • Neoclássico: colunas, frontões e formas inspiradas na Antiguidade greco-romana
  • Neogótico: arcos ogivais, pináculos e vitrais
  • Romântico: figuras alegóricas da dor, anjos chorosos e mulheres enlutadas
  • Art Nouveau: linhas sinuosas, motivos florais e figuras estilizadas
  • Modernista: formas geométricas simplificadas e materiais contemporâneos

Escultores Notáveis

Alguns dos maiores escultores portugueses deixaram obra significativa nos cemitérios do país. Soares dos Reis, Teixeira Lopes, Costa Motta e Leopoldo de Almeida são apenas alguns dos artistas cujas obras podem ser admiradas nos cemitérios de Lisboa, Porto e outras cidades.

Os Cemitérios como Espaço de Memória Nacional

Vários cemitérios portugueses albergam os restos mortais de personalidades que marcaram a história do país, transformando-se em espaços de memória nacional.

Cemitério dos Prazeres, Lisboa

O maior cemitério de Lisboa, com mais de 40 hectares, é o local de repouso de figuras como o Duque de Palmela, o escritor Aquilino Ribeiro e o artista Amadeo de Souza-Cardoso. Os seus jazigos de família são verdadeiras obras de arte arquitectónica.

Cemitério de Agramonte, Porto

No Porto, o Cemitério de Agramonte alberga os túmulos de personalidades como o escritor Camilo Castelo Branco e o pintor Henrique Pousão. O cemitério é também notável pela sua coleção de arte tumular do século XIX.

O Século XX: Democratização e Simplificação

Ao longo do século XX, os cemitérios portugueses sofreram transformações significativas. A democratização do acesso levou à construção de cemitérios mais funcionais e menos monumentais. Os grandes jazigos de família foram sendo substituídos por campas mais simples e padronizadas.

Os Cemitérios Municipais

A gestão dos cemitérios passou a ser maioritariamente municipal, com regulamentos próprios que definem regras sobre tipologia de sepulturas, prazos de concessão, manutenção e outros aspetos. A maioria dos municípios portugueses possui pelo menos um cemitério municipal, muitos deles com listas de espera para a concessão de sepulturas perpétuas.

O Século XXI: Novos Desafios e Tendências

Os cemitérios portugueses enfrentam hoje desafios sem precedentes:

Falta de Espaço

Muitos cemitérios urbanos estão saturados, com pouco ou nenhum espaço para novas sepulturas. Esta pressão tem levado ao aumento da cremação e à criação de novos cemitérios nas periferias das cidades.

Cremação em Crescimento

A taxa de cremação em Portugal tem vindo a aumentar significativamente, representando já mais de 30% dos destinos finais nas grandes cidades. Esta tendência tem implicações na gestão dos cemitérios e na criação de espaços dedicados à deposição de cinzas.

Cemitérios-Jardim

Seguindo modelos do norte da Europa, alguns municípios portugueses têm investido na criação de cemitérios-jardim, espaços verdes onde os túmulos se integram harmoniosamente na paisagem. Estes cemitérios procuram oferecer um ambiente de serenidade e contemplação, em contraste com a dureza visual dos cemitérios tradicionais.

Turismo Cemiterial

O turismo cemiterial é uma tendência crescente em Portugal. Cemitérios como os Prazeres, em Lisboa, ou Agramonte, no Porto, oferecem visitas guiadas que exploram a história, a arte e as personalidades que neles repousam. Esta prática contribui para a valorização dos cemitérios como património cultural.

Preservação do Património Funerário

A preservação do património funerário é um desafio crescente em Portugal. Muitos jazigos e esculturas encontram-se em estado de degradação avançada, resultado do abandono pelas famílias e da falta de recursos das autarquias para a sua manutenção.

Diversas associações e iniciativas cidadãs têm trabalhado na sensibilização para a importância da preservação deste património. O reconhecimento dos cemitérios como espaços de valor histórico e artístico é fundamental para garantir que este legado cultural não se perca.

Os cemitérios portugueses contam a história do país de uma forma única e irrepetível. Preservá-los é preservar a nossa memória coletiva.

Sofia Carvalho

Sobre o Autor

Sofia Carvalho

Jornalista e Investigadora em Tradições Culturais Portuguesas

Jornalista com 15 anos em reportagem cultural, autora de 'Rituais de Despedida'.

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